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Livro: Apologética para Questões Difíceis da Vida, William L. Craig

23 de outubro de 2011 § 0

Gostei muito de ler Apologética para Questões Difíceis da Vida. William Lane Craig aborda temas de grande dúvida como as orações não respondidas, o fracasso, o sofrimento, o mal e os grandes causadores de polêmicas como aborto e homossexualidade. Eu assino em baixo a proposta do livro em oferecer respostas com uma reflexão bíblica profunda e honesta.

Achei muito interessante o capítulo de introdução em que Craig aborda a estagnação intelectual dos estudantes universitários norte-ameriacanos. Ele nos alerta sobre o analfabetismo bíblico e teológico e propõe um teste para analisarmos nosso conhecimento.

Por exemplo, se eu disser "John Wesley", você poderá escrever: "o fundador do Metodismo" ou "um reavivalista inglês do século XVIII".

Teste

Agostinho
Cocílio de Nicéia
Trindade
Duas naturezas unidas numa pessoa
Panteísmo
Tomás de Aquino
Reforma
Martinho Lutero
Expiação substitutiva
Iluminismo¹

Quando fiz, desconhecia completamente duas. Achei muito bacana, pois concordo com a visão dele da necessidade do cristão se tornar intelectualmente engajado. É uma pena que muitos cristãos não se interessem em aprofundar seu conhecimento. Craig tem razão, nós temos de preservar a verdade de nossa própria herança e doutrina cristã, se não fizermos isso ninguém fará por nós. Recomendo como um livro essencial para um crescimento intelectual e também para firmar nossa fé em Cristo.

¹ Willian Lane Craig, Apologética para Questões Difíceis da Vida, São Paulo : Vida Nova 2010, p. 13

Norman Geisler: Uma Apologética a Favor da Apologética

30 de abril de 2011 § 0


Encontrei este texto de Norman Geisler no indispensável blog Deus em Debate. Nele o autor refuta argumentos que são contra a apologética. Desde que me interessei em estudá-la minha fé só tem aumentado, sem dúvida é algo que realmente vale a pena e o texto abaixo confirma isto.

WWW.DEUSEMDEBATE.BLOGSPOT.COM

UMA APOLOGÉTICA A FAVOR DA APOLOGÉTICA

NORMAN GEISLER


Introdução

O cristianismo está sob ataque hoje, e deve ser defendido. Há ataques internos, de cultos, seitas e heresias. E há ataques externos, por ateus, céticos e outras religiões. A disciplina que lida com uma defesa racional da fé cristã é chamada de apologética. Ela vem da palavra grega apologia (cf. 1 Pedro 3:15), que significa dar uma razão ou defesa.

I. As objecções à defesa da Fé: Bíblicas e extra-bíblicas

Muitas objeções têm sido oferecidas contra fazer apologética. Alguns tentam oferecer uma justificação bíblica. Outros são baseados no raciocínio extra-bíblico. Primeiro, vamos dar uma olhada nas que se baseiam em textos bíblicos.

A. Objecções à Apologética de dentro da Bíblia

1. A Bíblia não precisa ser defendida

Uma objeção para a apologética feita muitas vezes é a afirmação de que a Bíblia não precisa ser defendida, simplesmente precisa ser exposta. Hebreus 4:12 é frequentemente citado como evidência: "A Palavra de Deus é viva e poderosa..." (NVI). Diz-se que a Bíblia é como um leão; não precisa ser defendida, mas simplesmente solta. Um leão pode se defender. Várias coisas devem ser notadas como resposta a isso. Em primeiro lugar, isso nos leva a perguntar se a Bíblia é ou não a Palavra de Deus. É claro, a Palavra de Deus é suprema, e fala por si mesma. Mas, como sabemos que a Bíblia é a Palavra de Deus, e não o Alcorão, o Livro de Mórmon, ou algum outro livro? É preciso apelar para a evidência para determinar quais dos muitos livros em conflito realmente é a Palavra de Deus.
Em segundo lugar, nenhum cristão aceitaria sem questionar se um muçulmano declarasse "o Alcorão é vivo e poderoso e mais penetrante que uma espada de dois gumes...” Nós exigiríamos evidências. Da mesma forma, nenhum não-cristão deve aceitar a nossa alegação sem provas.
Em terceiro lugar, a analogia do leão é enganosa. O rugido de um leão fala com autoridade apenas porque sabemos, a partir de um conhecimento prévio, o que um leão pode fazer. Sem os contos admiráveis sobre a ferocidade de um leão, seu rugido não teria o mesmo efeito de autoridade sobre nós. Da mesma forma, sem evidência para estabelecer o crédito à autoridade, não há nenhuma boa razão para se aceitar essa autoridade.

2. Jesus se recusou a fazer sinais para homens maus

Alguns argumentam que Jesus repreendeu as pessoas que procuravam por sinais. Por isso, devemos estar contentes simplesmente com acreditar sem evidências. Na verdade, Jesus em uma ocasião repreendeu buscadores de sinais. Ele disse: "Uma geração má e adúltera pede um milagre!" (Mateus 12:39 cf. Lucas 16:31). No entanto, isso não significa que Jesus não queria que as pessoas olhassem para a evidência antes de acreditarem, por muitas razões:
Em primeiro lugar, nesta mesma passagem, Jesus ofereceu o milagre da Sua ressurreição como um sinal de quem Ele era, dizendo: "Mas nenhum lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas” (Mateus 12:39-40). Da mesma forma, Paulo deu muitas evidências para a ressurreição (em 1 Coríntios 15). E Lucas fala de "muitas provas incontestáveis" (Atos 1:3) da ressurreição.
Em segundo lugar, quando João Batista perguntou se Ele era o Cristo, Jesus ofereceu milagres como prova, dizendo: "Ide e anunciai a João o que vedes e ouvis: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e as boas novas são anunciadas aos pobres" (Mt 11:5). Ao responder aos escribas, Ele disse: “Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados. ‟Ele disse ao paralítico: Eu te digo, levanta-te, toma o teu leito e vai para casa” (Mc 2:1011). Nicodemos disse a Jesus: "Rabi, sabemos que és um Mestre vindo da parte de Deus. Pois ninguém poderia realizar os sinais miraculosos que estás fazendo, se Deus não fosse com ele" (João 3:2).
Em terceiro lugar, Jesus se opunha à busca de sinais e a entreter as pessoas através de milagres. De fato, Ele se recusou a realizar um milagre para satisfazer a curiosidade do rei Herodes (Lc 23:8). Em outras ocasiões, Ele não fez milagres por causa da sua incredulidade (Mt 13:58), não desejando "lançar pérolas aos porcos". O propósito dos milagres de Jesus foi apologético, ou seja, o de confirmar a sua mensagem (cf. Êx 4:1;. Jo 3:2;. Hb 2:3-4). Ele fez isso em grande abundância, pois "Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus fez entre vocês por intermédio dele..." (Atos 2:22).

3. Paulo não teve sucesso com seu uso da razão no Areópago e, posteriormente, descartou essa abordagem

Os opositores da apologética muitas vezes argumentam que Paulo não foi bem sucedido em sua tentativa de alcançar os pensadores no Areópago (Atos 17), que rejeitou o método e que, posteriormente, disse aos coríntios que ele queria "conhecer a Jesus e a Ele somente" (1 Cor. 2:2 ). No entanto, esta interpretação é baseada em um mal-entendido do texto.
Primeiro, Paulo teve resultados no Areópago, pois algumas pessoas foram salvas, incluindo um filósofo. O texto diz claramente "Alguns homens se tornaram seguidores de Paulo e creram. Entre eles estava Dionísio, membro do Areópago, também uma mulher chamada Damaris, e uma série de outros" (Atos 17:34).
Segundo, em nenhum lugar, nem em Atos nem em 1 Coríntios, Paulo indica qualquer arrependimento ou pesar pelo que ele fez no Areópago. Esta é uma leitura no texto que simplesmente não está lá.
Terceiro, a declaração de Paulo sobre pregar Jesus e Jesus comente não é uma mudança no conteúdo da pregação de Paulo. Isso é o que ele fazia em toda parte. Mesmo para os filósofos "ele pregava a Jesus e a ressurreição" (Atos 17:18 cf. V. 31). Então, nesse texto, não há nada de original sobre aquilo que ele pregava, era simplesmente assim que ele fazia.
Paulo adaptava o seu ponto de partida à situação da audiência. Com os pagãos em Listra, ele começou com um apelo à natureza (Atos 14) e terminou pregando Jesus a eles. Com os judeus, começou com o VT e direcionou-se para Cristo (Atos 17:2-3). Mas, com os pensadores gregos, Paulo começou com a criação e a razão para um Criador e depois falou de Seu Filho Jesus que morreu e ressuscitou (Atos 17:24 f).

4. Somente a fé, não a razão, pode agradar a Deus

Hebreus 11:6 insiste que "sem fé é impossível agradar a Deus." Isto parece argumentar contra a necessidade da razão. Na verdade, parece que pedir razões, em vez de simplesmente acreditar, desagradaria a Deus. Em resposta a este argumento contra a apologética, dois pontos importantes devem ser levantados.
Antes de tudo, o texto não diz que com a razão é impossível agradar a Deus. Ele diz que sem fé não se pode agradar a Deus. Ele não elimina a razão acompanhando a fé ou uma fé racional.
Em segundo lugar, Deus de fato nos convida a usar a nossa razão (1 Ped. 3:15). Na verdade, deu "claras" (Rm 1:20) e "convincentes provas" (Atos 01:03 NVI) de modo que não tenhamos de exercer uma fé cega. Em terceiro lugar, este texto de Hebreus não exclui a "evidência", mas na verdade a pressupõe. Pois da fé é dito ser "a evidência" das coisas que não vemos (Hebreus 11:1 NVI). Por exemplo, a evidência de que alguém é uma testemunha confiável justifica minha crença no seu testemunho do que viu e eu não. Mesmo assim, nossa fé em "coisas que não vemos" (Hebreus 11:1 NVI) é justificado pelas provas que temos de que Deus existe, que é "claramente visto, a ser entendido a partir do que foi feito" (Rm 1:20).

5. Paulo disse que Deus não pode ser conhecido pela razão humana quando ele escreveu, "o mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus" (1 Cor. 01:21 NVI).

No entanto, isso não pode significar que não há provas da existência de Deus, uma vez que Paulo declarou em Romanos que as provas da existência de Deus são tão "evidentes" que tornam o próprio pagão "indesculpável" (Rm 1:19-20). Além disso, o contexto de 1 Coríntios não é a existência de Deus, mas seu plano de salvação através da cruz. Isso não pode ser conhecido por mera razão humana, mas apenas por revelação divina. É "loucura" para a mente humana depravada.
Além disso, a "sabedoria" de que fala é "a sabedoria deste mundo" (v. 20), não a sabedoria de Deus. Paulo chamou um sofista de "argumentador deste mundo" (v. 20). Um sofista poderia argumentar só por argumentar. Isto não leva ninguém a Deus.
Além disso, a referência de Paulo ao mundo como a sabedoria não conhecer a Deus não é uma referência à incapacidade do ser humano de conhecer a Deus através das provas que Ele tem revelado na criação (Rm 1:19-20) e consciência (Rm 2:12 -15). Pelo contrário, é uma referência à depravada e louca rejeição do homem à mensagem da cruz.
Finalmente, nesse mesmo livro de 1 Coríntios, Paulo dá a sua maior prova apologética da fé cristã - as testemunhas oculares da ressurreição de Cristo, que seu companheiro de Lucas chamou de "muitas provas incontestáveis" (Atos 1:3 NVI).
De fato, embora o homem conheça claramente por meio da razão humana que Deus existe, no entanto, ele "suprime" ou "sufoca” essa verdade em injustiça (Romanos 1:18). Assim, é a presença de tais fortes evidências que o torna "indesculpáveis" (Rm 1:20).

6. O homem natural não pode entender as verdades espirituais

Paulo insistiu que "o homem sem o Espírito não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus ..." (1 Cor. 2:14). Eles não podem sequer "conhecê-las.” Que uso, então, teria a apologética? Em resposta a este argumento contra a apologética, duas coisas devem ser observadas.
Primeira, Paulo não diz que as pessoas naturais podem não perceber a verdade sobre Deus, mas apenas que eles não recebê-la (Gr.: dekomai, bem-vindo). De fato, Paulo declarou enfaticamente que as verdades básicas sobre Deus são "claramente vistas" (Rm 1:20). O problema não é que os incrédulos não estão cientes da existência de Deus, mas que eles não querem aceitá-Lo por causa das consequências morais que isso teria na sua vida pecaminosa.
Segunda, 1 Coríntios. 2:14 diz que eles não "conhecem" (Gr.: ginosko), o que pode significar “conhecer pela experiência.” Em outras palavras, eles conhecem a Deus em sua mente (Rm 1:19-20), mas não aceitaram a Ele em seu coração (Romanos 1:18). A Bíblia diz: “Diz o insensato em seu coração, „Não há Deus‟” (Salmo 14:1).

7. Somente o Espírito Santo pode trazer alguém para Cristo

A Bíblia diz que a salvação é uma obra do Espírito Santo. Só ele pode condenar, convencer e converter (João 16:8; Ef 2:1;. Tito 3:5-7). Isto é certamente verdadeiro, e nenhum cristão ortodoxo nega isso. No entanto, duas coisas devem ser mantidas em mente.
Primeiro, a Bíblia não ensina que o Espírito Santo vai sempre fazer isto aparte da razão e da evidência. Não é “ou o Espírito Santo ou a razão.” Pelo contrário, é o razoável Espírito Santo usando uma boa razão para alcançar pessoas racionais. Deus é sempre a causa eficiente da salvação, mas os argumentos apologéticos podem ser uma causa instrumental usada pelo Espírito Santo para trazer uma pessoa para Cristo.
Em segundo lugar, os apologistas não acreditam que a apologética salve alguém. Ela apenas fornece a evidência à luz da qual as pessoas podem tomar decisões racionais. Ela apenas fornece evidências de que o cristianismo é verdadeiro. A pessoa ainda deve pôr sua fé em Cristo para ser salva. A apologética só leva o "cavalo" para a água. Somente o Espírito Santo pode convencer-lhe a beber.

8. A apologética não é usada na Bíblia

É argumentado que, se a apologética é bíblica, então por que não a vemos ser praticada na Bíblia? Há duas razões básicas para este mal-entendido.
Em primeiro lugar, em grande parte, a Bíblia não foi escrita para os incrédulos, mas para os crentes. Uma vez que eles já acreditam em Deus, Cristo, etc., já estão convencidos de que estes são verdadeiros. Assim, a apologética é dirigida principalmente para aqueles que não crêem, para que eles possam ter uma razão para acreditar.
Em segundo lugar, ao contrário da alegação dos críticos, apologética é usada na Bíblia. 1) O primeiro capítulo do Gênesis confronta os relatos míticos da criação conhecidos naqueles dias. 2) os milagres de Moisés no Egito eram uma apologética que Deus estava falando através dele (Ex. 4:1-9). 3) Elias fez apologética no Monte Carmelo, quando ele provou miraculosamente que o Senhor é o Deus verdadeiro, e não Baal (1 Reis 18). 4) Como temos mostrado em detalhe em outro lugar, Jesus estava constantemente envolvido em apologética, provando com sinais e maravilhas que Ele era o Filho de Deus (João 3:2, Atos 2:22). 5) O apóstolo Paulo fez apologética em Listra, quando ele deu provas da natureza para as nações que o Deus supremo do universo existiu e que a idolatria era errada (Atos 14). 6) O caso clássico da apologética no Novo Testamento é Atos 17, onde Paulo argumentou com os filósofos no Areópago. Ele não só apresentou evidências naturais de que Deus existe, mas também históricas de que Cristo é o Filho de Deus. Na verdade, ele citou pensadores pagãos em apoio da sua argumentação.

B. Objeções à Apologética de fora da Bíblia

Essas objeções contra a apologética são orientados a mostrar a sua irracionalidade, inadequação ou inutilidade. Muitas vêm de um ponto de vista racionalista ou cético. Outros são fideístas, que negam que a razão deve ser utilizada para apoiar a fé de uma pessoa.

1. A razão humana não pode nos dizer nada sobre Deus. Alguns críticos afirmam que a razão humana não pode nos dar qualquer informação a respeito de Deus.

Primeiro, isso diz que a razão não se aplica a questões sobre Deus. Mas essa declaração em si mesma é oferecida como uma declaração razoável sobre a questão de Deus. A fim de dizer que a razão não se aplica a Deus, é necessário aplicar a razão a Deus nessa declaração. Então, o raciocínio a respeito de Deus é inescapável. A razão não pode ser negada sem ser utilizada.
Em segundo lugar, a razão puramente hipotética em si não nos diz nada sobre a existência de algo, inclusive Deus. Mas, uma vez que inegavelmente existe algo (por exemplo, eu existo), então a razão pode nos dizer muito sobre a existência, inclusive Deus. Por exemplo, se algo finito e contingente existe, então algo infinito e necessário deve existir (ou seja, Deus). E se Deus existe, então é falso que Ele não existe. E se Deus é um ser necessário, então Ele não pode deixar de existir. Além disso, se Deus é o Criador e nós somos criaturas, então não somos Deus. Da mesma forma, a razão nos informa que, se Deus é onipotente, então Ele não pode fazer uma pedra tão pesada que Ele não pode levantar. Pois, tudo o que Ele pode fazer, Ele pode levantar.

2. A razão é inútil em assuntos religiosos

O Fideísmo argumenta que a razão não tem qualquer utilidade em questões que tratam de Deus. Deve-se simplesmente acreditar. Fé, não a razão, é o que Deus requer (Hebreus 11:6). Em resposta a isso, vários pontos podem ser levantados.
Em primeiro lugar, mesmo do ponto de vista bíblico, Deus convida-nos a usar nossa razão (Isaías 1:18; 1 Pe 3:15;. Mateus 22:36-37). Deus é um ser racional, e Ele nos criou como seres racionais. Deus não insultaria a razão que Ele nos deu pedindo-nos para ignorá-la em questões tão importantes como as nossas crenças sobre Ele.
Em segundo lugar, esta posição é fideísta e é auto-refutadora. Pois, ou há uma razão para acreditarmos que não devemos raciocinar sobre Deus ou não há. Se houver, então ela derrota a si mesma usando a razão para dizer que não devemos usar a razão. Se o fideísmo não tem nenhuma razão para não usar a razão, então é uma posição irracioal, em cujo caso não há nenhuma razão pela qual alguém deveria aceitar o fideísmo.
Além disso, afirmar que a razão é apenas opcional para um fideísta não será suficiente. Pois, ou o fideísta oferece algum critério para quando devemos ser racionais e quando não devemos, ou então sua visão é simplesmente arbitrária. Se ele oferece alguns critérios racionais para quando devemos ser racionais, então ele tem uma base racional para seu ponto de vista, caso em que ele não é realmente um fideísta, no final das contas. A razão não é o tipo de coisa em que uma criatura racional pode optar por participar. Em virtude de ser racional por natureza, uma pessoa deve ser parte do discurso racional. E um discurso racional exige que uma pessoa siga as leis da razão.
Uma das grandes contribuições feitas pelo falecido Francis Schaeffer foi sua ênfase na necessidade de uma abordagem racional para a apologética. Na sua obra Escape from Reason [Fuga da Razão], ele mostrou a futilidade dos quem tentam rejeitar a razão. Ele sempre criticou aqueles que fazem uma "dicotomia entre a razão e a não-razão." Ele também critica aqueles que abandonam a razão para descer um andar para o materialismo ou subir um andar para o misticismo.

3. Você não pode provar Deus ou o cristianismo pela Razão

De acordo com esta objeção, a existência de Deus não pode ser provada pela razão humana. A resposta depende do que se entende por "provar".
Primeiro, se "provar" significa demonstrar, com certeza matemática, então a maioria dos teístas concordam que a existência de Deus não pode ser provada neste sentido. A razão para isso é que a certeza matemática lida apenas com o abstrato, e a existência de Deus (ou qualquer outra coisa) é uma questão de existência concreta e real. A certeza matemática baseia-se em certos axiomas ou postulados que devem ser assumidos a fim de se obter uma conclusão necessária. Mas se a existência de Deus deve ser assumida a fim de ser provada, então a conclusão de que Deus existe é apenas baseada na suposição de que Ele existe, caso em que não é realmente uma prova a todos. A certeza matemática é dedutiva em sua natureza. Alega a partir de premissas dadas. Mas não se pode concluir validamente algo que não já esteja implícito na(s) premissa(s). Neste caso, seria preciso assumir que Deus existe na premissa de modo a validamente inferir esta na conclusão. Mas isso é petição de princípio.
Segundo, se por "provar", no entanto, queremos dizer "dar provas suficientes para" ou "dar boas razões para", então parece lógico que se pode provar a existência de Deus e da verdade do cristianismo. De fato, muitos defensores têm oferecido tais provas e as pessoas tem se tornado cristãs, depois de ler seus escritos.

4. Ninguém é convencido de verdades religiosas pela razão

Segundo este argumento, ninguém é persuadido a aceitar uma verdade religiosa através da razão. São fatores psicológicos, pessoais e subjetivos que levam a decisões religiosas, não argumentos racionais. Mas essa acusação é manifestamente falsa por várias razões.
Primeiro de tudo, quem já se tornou um crente, por pensar que era irracional e absurdo fazê-lo? Certamente, a grande maioria das pessoas que acreditam em Deus ou aceitam a Cristo fazem-no porque acham que isso é razoável.
Em segundo lugar, esta objeção confunde dois tipos de crenças: a crença em e crença de que. Certamente, a crença religiosa em Deus e em Cristo não é baseada na evidência e na razão. Mas sem elas, isso não acaba. Toda pessoa racional olha para ver se há indícios de que o elevador tem um piso antes de entrar no mesmo. Da mesma forma, todas as pessoas racionais querem provas de que um avião pode voar antes de entrar nele. Assim, a crença de que é anterior à crença em. A apologética lida com o primeiro tipo. Ela fornece provas de que Deus existe, de que Cristo é o Filho de Deus, e de que a Bíblia é a Palavra de Deus. A decisão religiosa é um passo de fé, à luz das provas, não um salto de fé no escuro - na ausência de provas.

II. As razões para a necessidade de defender a fé

Há muitas boas razões para fazer apologética. Primeiro de tudo, Deus nos ordena a fazê-lo. Em segundo lugar, a razão exige isso. Terceiro, o mundo precisa dela. Em quarto lugar, os resultados confirmam isso.

A. Deus ordena o Uso da Razão

A razão mais importante para se fazer apologética é que Deus nos disse para fazê-lo. Mais e mais o Novo Testamento exorta-nos a defender a fé. 1 Pedro 3:15 diz: "Mas em seus corações reconheçam Cristo como o Senhor santo. Estejam sempre preparados para dar uma resposta a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que vocês tem." Este versículo diz várias coisas importantes.
Primeiro, ele diz que devemos estar preparados. Nós podemos nunca se deparar com alguém que faz as perguntas difíceis sobre a nossa fé, mas ainda devemos estar prontos para esse caso. Mas estar preparado não é apenas uma questão de ter as informações corretas disponíveis, é também uma atitude de disponibilidade e vontade de partilhar com os outros a verdade daquilo em que acreditamos.
Segundo, devemos dar uma razão para aqueles que fazem as perguntas (cf. Col. 4:5-6). Não se espera que cada um precise de pré-evangelismo, mas quando alguém precisar dele, temos de ser capazes e dispostos a dar-lhes uma resposta.
Finalmente, isso conecta o pré-evangelismo com fazer de Jesus Cristo o Senhor em nossos corações. Se Ele é realmente Deus, então devemos ser obedientes a Ele "destruindo as especulações e cada sofisma que se levante contra o conhecimento de Deus, e... levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo" (2 Coríntios. 10:05 ). Em outras palavras, devemos confrontar as questões em nossas próprias mentes e nas idéias expressas de outras pessoas que as estão impedindo de conhecer a Deus. É disso que se trata a apologética.
Em Filipenses 1:7, Paulo fala de sua missão como sendo a de "defender e confirmar o evangelho". Ele acrescentou, no versículo 16: "Estou posto aqui para a defesa do evangelho" (Fl 1:16). E fomos postos onde estamos para defendê-lo também.
Judas 3 declara: "Amados, embora fazendo todo esforço para escrever-vos acerca da nossa comum salvação, senti a necessidade de escrever-vos para que batalhem diligentemente pela fé que de uma vez por todas entregue aos santos". As pessoas para quem Judas escreveu estavam sendo assediadas por falsos mestres e ele precisava incentivá-los a proteger (literalmente, agonizar pela) fé conforme foi revelada através de Cristo. Judas faz uma declaração importante sobre qual deve ser nossa nossa atitude ao fazer isso no versículo 22, quando diz, "tem piedade de alguns, que estão em dúvida." Apologética, então, é uma forma de compaixão.
Tito 1:9 torna o conhecimento das evidências cristãs um requisito para a liderança da igreja. Um ancião na igreja deve estar "retendo a palavra fiel, que está em conformidade com o ensino, para que ele seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina quanto para refutar quem a contradiz."
Em 2 Timóteo 2:24-25 Paulo declara que "ao servo do Senhor não convém contender, mas ser gentil para com todos, apto para ensinar, paciente quando injustiçado, corrigindo com mansidão os que estão na oposição, esperando que porventura Deus lhes conceda o arrependimento que leva ao conhecimento da verdade." Qualquer pessoas tentando responder às perguntas dos descrentes será certamente injustiçado e tentado a perder a paciência, mas o nosso objetivo final é que eles possam chegar ao conhecimento da verdade de que Jesus morreu pelos seus pecados.
De fato, o comando para usar a razão faz parte do maior mandamento. Porque Jesus disse: “ Amarás o Senhor teu Deus com todo seu coração e com toda tua alma e com toda tua mente.‟ Este é o primeiro e maior mandamento” (Mt 22:37-38).

B. A Razão o exige

Deus nos criou com uma razão humana. Ela faz parte de Sua imagem em nós (cf. Gn 1:27. Col. 3:10). Na verdade, é através dela que somos distinguidos de "animais irracionais" (Judas 10). Deus convida-nos a usar nossa razão (Is 1:18) para discernir a verdade do erro (1 João 4:6), para determinar o certo do errado (Hebreus 5:14), e discernir um verdadeiro de um falso profeta (Deuteronômio 18:19-22).
Um princípio fundamental da razão é o de que nós devemos ter motivos suficientes para aquilo em que nós acreditamos. Uma crença não justificada é apenas isso – não-justificada. Tendo sido criados como criaturas racionais e não "animais irracionais" (Judas 10), espera-se de nós que usemos a razão que Deus nos deu. Sócrates disse: "A vida não examinada não vale a pena viver." Da mesma forma, a fé não examinada não vale a pena ter. Portanto, cabe aos cristãos "dar uma razão para a sua esperança" (1 Pd. 3:15). Isso faz parte do grande comando de amar a Deus com toda nossa mente, assim como nossa alma e coração (Mt 22:36-37).

C. O mundo precisa disso

Muitas pessoas se recusam a acreditar sem alguma evidência, como de fato deveriam. Uma vez que Deus nos criou como seres racionais, Ele espera que vivamos racionalmente. Ele quer que olhemos antes de saltar. Isso não significa que não há espaço para a fé. Mas Deus quer nos dar um passo de fé na luz - à luz das provas. Ele não quer que saltemos no escuro.
Nós deveríamos ter evidência de que algo é verdadeiro antes de colocarmos nossa fé naquilo. Por exemplo, nenhuma pessoa racional entra em um elevador a menos que tenha alguma razão para acreditar que ele vai segurá-la. Da mesma forma, nenhuma pessoa racional entra em um avião que tem uma asa quebrada e fumaça saindo do final da cauda. A crença que precede a crença em que. A evidência e a razão são importantes para estabelecer a crença em que. Uma vez estabelecido isso, uma pessoa pode colocar sua fé nele. Assim, a pessoa racional vai querer alguma evidência de que Deus existe, antes que de colocar sua fé em Deus. Da mesma forma, os incrédulos racionais querem provas para a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus antes de colocarem sua confiança nEle.

D. Os resultados confirmam isso

Há um pensamento equivocado comum entre muitos cristãos de que a apologética nunca ajuda a levar alguém a Cristo. Esta é uma grave deturpação dos fatos.

1. A conversão de Santo Agostinho

Houve vários pontos de mudança racional na vida de Agostinho, antes de ele vir a Cristo. Primeiro, ele raciocinou seu caminho para fora do dualismo maniqueísta. Um ponto de mudança significativo aqui foi o sucesso de um jovem cristão debatedor chamado Helpidius sobre os maniqueus.
Em segundo lugar, Agostinho raciocinou seu caminho para fora do ceticismo total, vendo a natureza autodestrutiva do mesmo.
Em terceiro lugar, se não fosse por estudar Plotino, Agostinho nos informa que ele não teria sequer sido capaz de conceber um ser espiritual, e muito menos acreditar em um.

2. A conversão de Frank Morrison

Este advogado cético decidiu refutar o Cristianismo mostrando que a ressurreição nunca ocorreu. A busca terminou com sua conversão e em um livro intitulado Who Moved the Stone? [Quem Moveu a Pedra?], cujo primeiro capítulo foi intitulado "O Livro que se recusava a ser escrito"! Mais recentemente, outro advogado incrédulo teve uma viagem semelhante.

3. A conversão de Simon Greenleaf

Na virada do século, o professor de Direito em Harvard, que escreveu o livro sobre evidências legais, foi desafiado por alunos a aplicar as regras de evidências legais no Novo Testamento para ver se o seu testemunho teria valor em um tribunal. O resultado foi um livro intitulado The Testimony of the Evangelists [O Testemunho dos Evangelistas], na qual exprime a sua confiança nos documentos e nas verdades básicas da fé cristã.

4. Os resultados de Debates


Muitas pessoas têm sido levadas em direção ou para dentro do cristianismo, como resultado dos debates que temos com ateus e céticos. Após debater com o filósofo da Universidade de Berkley Michael Scriven sobre "O Cristianismo é crível?" a platéia da Universidade de Calgary votou 3 contra 1 a favor do cristianismo. O jornal do campus relatava: "Ateu não consegue converter os cristãos do Campus!"
Após um debate sobre a racionalidade da crença no cristianismo com o chefe do departamento de filosofia da Universidade de Miami, a liderança cristã estudantil realizou uma reunião de acompanhamento. O professor ateu compareceu e manifestou dúvidas sobre a sua visão expressa no debate. Foi relatado que cerca de 14 pessoas que tinham assistido ao debate tomaram decisões para Cristo.
Depois de um debate sobre a religião Moonie na Northwestern University em Evanston, Illinois, uma moça Moonie fez algumas questões sobre o Cristianismo. Eu podia ver que ela tinha sido convencida de que a Igreja da Unificação não estava ensinando a verdade. Depois de falar brevemente com ela, eu a apresentei a uma estudante de seminário que a levou a Cristo.
Ao compartilhar o evangelho com Don Bly, ele nos informou que ele era ateu. Depois de raciocinar com ele do ateísmo para o agnosticismo de mente aberta, ele concordou em ler o livro de Frank Morrison. A evidência para a ressurreição de Cristo convenceu-o e nós tivemos o privilégio de conduzi-lo a Cristo. Ele posteriormente criou sua família para Cristo e tornou-se um líder de uma igreja ao sul de St. Louis.

5. Os resultados da leitura de escritos de caráter apologético

Tenho recebido várias cartas e relatórios de pessoas que foram convertidas à crença de que Deus existe ou à crença em Cristo depois de ler Apologetics works [Obras de apologética]. Deus usou os seus argumentos como um instrumento para aproximar as pessoas a Cristo.
O ateu mais famoso do mundo, escreveu: "Nem posso afirmar ter tido alguma experiência pessoal de Deus ou qualquer experiência que possa ser chamada super-naturais ou miraculosa. Em suma, a minha descoberta do Divino tem sido uma peregrinação da razão e não da fé."
O notável ex-ateu Francis Collins disse: "Após 28 anos como um crente, a Lei Moral ainda se destaca para mim como o mais forte sinal para Deus. Mais do que isso, ela aponta para um Deus que se preocupa com os seres humanos, e um Deus que é infinitamente bom e santo."
Um estudante universitário, escreveu: "Deus me enviou seu livro „Eu não tenho fé suficiente para ser um ateu‟... Abri o livro pensando que eu ia detoná-lo com o meu ponto de vista superior e a cerca de um quarto do caminho acabei pedindo perdão a Deus e o aceitando em meu coração. Tenho, desde então, crescido exponencialmente em Cristo, e pensei que em agradecê-lo por seu livro inspirador."
"Acabei de ler Why I Am a Christian [Porque eu sou um cristão], e fiquei encantado. Esse é talvez o mais poderoso e influente livro cristão que já li. Foi exatamente o que eu estava procurando. Forneceu as respostas para as barreiras que estavam me guardando contra a minha fé... Seu livro pressionou o botão vermelho da bomba nuclear da minha fé."

Conclusão

O cristianismo está sob ataque hoje e deve ser defendido contra ataques de dentro, de cultos e heresias, e de fora, de céticos e outras religiões. Nós temos uma fé racional, e a Bíblia ordenou que damos razões para isso. Como talvez o maior apologista do século XX, C.S. Lewis, disse: "Sermos ignorantes e simples agora não sendo capazes de satisfazer os inimigos em seu terreno - seria largar as nossas armas e trair nossos iletrados irmãos que tem, sob Deus, nenhuma defesa além de nós contra os ataques intelectuais dos pagãos. Uma boa filosofia deve existir, se não por outro motivo, porque más filosofias precisam ser respondidas." A razão por que nós precisamos defender a verdadeira religião é porque existem religiões falsas. A razão pela qual precisamos levantar-se pelo cristianismo autêntico é que existem formas falsificadas do cristianismo.

* Este artigo é uma revisão de um artigo inédito chamado "A Necessidade de apologética."

** Salvo notado em contrário, todas as citações da Bíblia são tomadas a partir da Nova Versão Internacional da Bíblia (NVI).

* O Dr. Geisler tem um BA, MA, THM, e doutorado (em filosofia). Ele é autor de cerca de 70 livros e tem ensinado filosofia e ética, em nível superior e pós-graduação há cinquenta anos. Atualmente é Professor Emérito de Apologética e Teologia no Seminário Evangélico Veritas (www.VeritasSeminary.com). Seus artigos e materiais estão disponíveis em www.normgeisler.com.

Fonte: Uma Apologética a Favor da Apologética - Norman Geisler | Deus em Debate

O Avivamento Bíblico

13 de abril de 2011 § 0

 

Muito se fala sobre avivamento, existem lugares que até o agendam com data e hora marcada. Mas o que é avivamento? Ao questionar-me se realmente sabia seu significado bíblico, constatei que mesmo tendo ouvido, não poderia chegar a uma resposta satisfatória. Encontrei no site Monergismo o estudo “O Padrão Bíblico de Avivamento”, o qual me ajudou muito a compreendê-lo. Seu conteúdo poder ser lido abaixo:
O Padrão Bíblico de Avivamento

por

Rev. Josivaldo de França Pereira

    


Qual o padrão bíblico de avivamento? Os avivamentos bíblicos oferecem alguma coordenada para a renovação da igreja evangélica no Brasil de hoje?

Estas são algumas das perguntas que procuraremos responder no decorrer desse estudo.


I - O significado bíblico do termo "Avivamento":

1.1. No Antigo Testamento:


O verbo hebraico hyh (avivar) tem o significado primário de "preservar" ou "manter vivo". Porém, "avivar" não significa somente preservar ou manter vivo, mas também purificar, corrigir e livrar do mal. Esta é uma conseqüência natural em toda vez que Deus aviva. Na história de cada avivamento, dentro ou fora da Bíblia, lemos que Deus purifica, livra do mal e do pecado, tira a escória e as coisas que estavam impedindo o progresso da causa (1).

O verbo "avivar", em suas várias formas (2), é usado mais de 250 vezes no Antigo Testamento, das quais 55 vezes estão num grau chamado piel. Um verbo nas formas do Piel expressa uma ação ativa intensiva no hebraico. Neste sentido, o avivamento é sempre indicado como uma obra ativa e intensiva de Deus. Alguns exemplos de sua ocorrência são as clássicas orações de Davi, como esta: "Porventura, não tornarás a vivificar-nos (3), para que em ti se regozije o teu povo?" (Sl 85.6) (4), e da clássica oração do profeta Habacuque: "Tenho ouvido, ó Senhor, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3.2).


1.2. No Novo Testamento:

Encontramos no Novo Testamento grego um conjunto de palavras que expressam o conceito básico de avivamento. São elas: 'egeíro, 'anastáso, 'anázoe e 'anakaínoo. Outras palavras gregas comparam o avivamento ao reacender de uma chama que se apaga aos poucos (cf. 'anazopyréo em 2 Tm 1.6) ou uma planta que lança novos brotos e "floresce novamente" (cf. 'anaphállo em Fp 4.10).

No Novo Testamento grego as palavras supracitadas aparecem, no contexto de avivamento, apenas sete vezes, embora a idéia básica de avivamento seja sugerida com mais freqüência. Uma possível explicação para o uso escasso dos termos, em comparação ao Antigo Testamento, é que o Novo cobre apenas uma geração, durante a qual a Igreja Cristã desfrutou, na maior parte do tempo, um grau incomum de vida espiritual.


II - O que não é avivamento bíblico:

Antes de falarmos sobre avivamento bíblico, propriamente dito, acreditamos ser de grande ajuda uma abordagem, mesmo que rápida, do que não é o padrão bíblico de avivamento.

O Rev. Hernandes Dias Lopes, em seu livro AVIVAMENTO URGENTE, apresenta sete interessantes razões sobre o que não deve ser entendido como avivamento de verdade. Sou devedor ao dileto colega por suas pertinentes observações. Transcrevo-as quase que na íntegra.


2.1. Avivamento não é um programa agendado pela igreja.

Avivamento não é ação da igreja, mas de Deus. Avivamento é obra soberana e livre do Espírito Santo. A igreja não promove e nem faz avivamento. A igreja não é agente de avivamento. A igreja não agenda e nem programa avivamento. A igreja só pode buscar o avivamento e preparar o caminho da sua chegada. A igreja não produz o vento do Espírito, ela só pode içar suas velas em direção a esse vento.

A soberania de Deus, no entanto, não anula a responsabilidade humana. O avivamento jamais virá se a igreja não preparar o caminho do Senhor (5). O avivamento jamais acontecerá se a igreja não se humilhar. Sem oração da igreja, as chuvas torrenciais de Deus não descerão. Sem busca não há encontro. Sem obediência a Deus, jamais haverá derramamento do Espírito. Contudo, quem determina o quando e o como do avivamento é Deus. Ele é soberano. David Brainerd orou vários anos pelo avivamento entre os índios peles vermelhas no século XVIII. Aquele jovem, ajoelhado na neve, suava de molhar a camisa, em agonia de alma, em oração fervente, em favor daqueles pobres índios. Quando o seu coração parecia desalentado e já não havia prenúncios de chuva da parte de Deus, o Espírito foi poderosamente derramado e os corações se dobraram a Cristo aos milhares.


2.2. Avivamento não é mudança doutrinária.

Cometem ledo engano aqueles que querem descartar a teologia e desprezar a doutrina na busca do avivamento. Desprezar a doutrina é dinamitar os alicerces da vida cristã. Desprezar a doutrina é querer levantar um edifício sem lançar o fundamento. Desprezar a doutrina é querer por um corpo de pé e em movimento sem a estrutura óssea.

Não há vida piedosa sem doutrina. A doutrina é a base da ética. A teologia é mãe da ética. "Assim como o homem crê no seu coração, assim ele é" (Pv 23.7).

Vida sem doutrina gera misticismo e experiencialismo subjetivista. Avivamento sem doutrina é fogo de palha, é movimento emocionalista, é experiencialismo personalista e antropocentrista. Deus tem compromisso com a verdade e a sua Palavra é a verdade e todo avivamento precisa estar fundamentado na Palavra. O avivamento precisa estar norteado pelas Escrituras e não por sonhos e visões. Precisa estar dentro das balizas da Bíblia e não dentro dos muros de revelações subjetivistas, muitas vezes feitas na carne.


2.3. Avivamento não é mudança litúrgica.

Muitos crentes confundem avivamento com forma de culto, com liturgia animada, com coreografia e instrumental aparatoso.

Louvor não é encenação. Não é mimetismo. Não é ritualismo. Não é emocionalismo. Não é apenas seguir formas pré-estabelecidas, como bater palmas, dizer aleluia, amém e levantar as mãos. Louvor não é pululância, gingos e dança (6). Louvor que apenas levanta as mãos para o alto, mas não as estende para o necessitado não agrada a Deus. A Bíblia ordena levantar mãos santas ao Senhor, num gesto de rendição e entrega (I Tm 2.8). Louvor em que a pessoa apenas saltita e pula, mas não vive em santidade, é ofensa a Deus. Louvor que apenas verbaliza coisas bonitas para Deus, mas não leva Deus a sério na vida é fogo estranho diante do Senhor.

Louvor que não produz mudança de vida, quebrantamento, obediência e não leva as pessoas a confiarem em Deus, não é louvor, é barulho aos ouvidos de Deus. Assim diz o Senhor: "Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas liras" (Am 5.23).

Hoje estamos vivendo a época dos shows evangélicos, dos show-men, dos animadores de programas religiosos, do "rock evangélico", das músicas badaladas por um ritmo sensual.

Mais do que nunca é preciso tocar a trombeta em Sião e condenar a idéia de que precisamos imitar o mundo para atrair o mundo. A música do mundo tem entrado nas igrejas, para vergonha nossa e para derrota nossa. O louvor que agrada a Deus precisa ser em espírito e em verdade. O louvor precisa ser bíblico, senão é fogo estranho. Davi, no Salmo 40, versículo 3, fala-nos sobre as balizas do louvor que agrada a Deus: "E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão estas coisa, temerão e confiarão no Senhor". Primeiro, vemos a origem deste cântico: "E me pôs nos lábios". Este louvor vem de Deus e não do homem. Segundo, vemos a natureza deste cântico: "E me pôs nos lábios um novo cântico". Não é um novo de edição, mas novo de natureza. É um cântico que expressa a marca da sua nova vida, liberta do tremendal de lama (v2). Terceiro, vemos o objetivo deste cântico: "... Um hino de louvor ao nosso Deus". Este cântico não é para entreter ou agradar o gosto e preferência das pessoas. Este cântico vem de Deus e volta para Deus. Deus é o seu alfa e o seu ômega. Quarto, vemos o resultado deste cântico: "Muitos verão estas coisas, temerão e confiarão no Senhor". O louvor bíblico leva as pessoas a temerem a Deus, a confiarem em Deus. O verdadeiro louvor leva as pessoas a se voltarem para Deus.

O louvor não é um espaço da liturgia. Louvor é a totalidade da vida. "Bendirei ao Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre nos meus lábios" (Sl 34.1).

À luz destas coisas, é preciso dizer que avivamento não é mudança litúrgica, é mudança de vida. Avivamento não é histeria carnal, é choro pelo pecado. Deus não procura adoração. Ele procura adoradores.

Todavia, é preciso dizer que, embora o avivamento não seja mudança de liturgia, todo avivamento mexe com a liturgia. O avivamento desinstala a liturgia ritualista, cerimonialista, formalista, fria e morta e põe em seu lugar uma liturgia viva, alegre, ungida, onde há liberdade do Espírito, sem abandonar a ordem e a decência. Em épocas de avivamento, a liturgia é desingessada e o povo com alegria e liberdade do Espírito adora a Deus, em espírito e em verdade, sem regras rígidas pré-estabelecidas. Cada culto é um acontecimento singular, novo, onde há abertura para o que Deus deseja falar e fazer com o seu povo.

Hoje existem muitos cultos solenes, aparatosos, pomposos, mas estão mortos. Disse J. I. Packer no seu livro "Na Dinâmica do Espírito": "Não há nada mais solene do que um cadáver. Há cultos solenes que estão mortos". Embora o avivamento não seja mudança litúrgica, todo avivamento muda a liturgia, tornando-a bíblica, alegre, ungida, dirigida pelo Espírito de Deus. Devemos clamar como os puritanos: "Queremos liturgia pura".


2.4. Avivamento não é uma ênfase carismática unilateral.

Muitas pessoas hoje estão limitando o avivamento a milagres, curas e exorcismos, sem observarem a abrangência global da doutrina pneumatológica. Este é um sério perigo. Toda vez que super-enfatizamos uma verdade em detrimento de outra, nós produzimos deformações e distorções nesta verdade.

Deus pode e faz maravilhas, curas e prodígios extraordinários quando Ele quer. Ele é soberano. Ninguém pode deter a sua mão. Ninguém pode ser o conselheiro de Deus. Ninguém pode instruir a Deus e dizer o que Ele pode e o que Ele não pode fazer. Ninguém pode obstaculá-lo nem ensinar-lhe qualquer coisa. Ele faz tudo quanto Ele quer, como quer, onde quer, quando quer, com quem quer. "Ele faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Ele não obedece à agenda dos homens. Ele não se deixa pressionar. Ele é livre.

Entretanto, esta não é a ênfase do avivamento. A igreja hoje está correndo mais atrás de sinais do que atrás de santidade. A igreja hoje empolga-se mais com milagres do que com vida cheia do Espírito. A igreja hoje anseia mais as bênçãos de Deus do que o Deus das bênçãos. A igreja hoje busca mais uma vida antropocêntrica do que teocêntrica.

Avivamento não é efervescência carismática. Uma igreja pode ter todos os dons sem ser uma igreja avivada. Avivamento não é conhecido pelos dons do Espírito, mas pelo fruto do Espírito.

A igreja de Corinto possuía todos os dons, todavia, era uma igreja imatura e bebê espiritualmente. Naquela igreja profundamente carismática, havia divisões, cismas, brigas, partidos, contendas, imoralidade e irmãos levando outros irmãos aos tribunais mundanos. Havia falta de compreensão acerca do casamento e da liberdade cristã. Naquela igreja a ceia do Senhor estava sendo incompreendida, os dons estavam sendo usados erradamente, a ressurreição dos crentes estava sendo negada, e a cooperação financeira com os pobres negligenciada.

É verdade que, em épocas de avivamento, os dons são buscados e exercidos para a glória de Deus e a edificação da igreja, mas a ênfase carismática não é sinônimo de avivamento.


2.5. Avivamento não é modismo.

Muitos crentes, por desconhecimento, se posicionam contra o avivamento porque acham que ele é a mais nova onda da igreja. Acham que avivamento é uma coqueluche moderna e uma inovação sem nenhum respaldo bíblico e histórico.

Certamente, aqueles que assim pensam não estudam com critério a Bíblia nem a história da igreja. Os pontos culminantes da igreja aconteceram em épocas de avivamento. Desde o Antigo Testamento que esta é uma verdade incontestável. É só olhar para os grandes despertamentos na época de Ezequias, de Josias e de Neemias. É só ver o grande avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. É só ver o que Deus fez na Reforma do Século XVI, na Inglaterra, no século XVIII e em outros grandes avivamentos da história. Certamente, avivamento não é uma onda, não é um modismo. Ele possui firmes lastros históricos. Ele é nossa herança e nosso legado e deve continuar sendo nossa aspiração e nossa busca constante.


2.6. Avivamento não é uma visão dicotomizada da vida.

Muitas pessoas, quando começam a buscar avivamento, saem da realidade e enclausuram-se nos castelos inexpugnáveis de uma espiritualidade isolada e monástica. Tornam-se tão "espirituais" que já não sabem mais conviver com a vida, isolam-se, fazendo da vida uma caverna de fuga. Querem sair do mundo em vez de serem guardados do mal. Dividem a vida entre sagrado e profano, corpo e alma, matéria e espírito. Acham que Deus está interessado apenas nas coisas espirituais. Acham que Deus só olha para a vida de trabalho na igreja, sem observar os negócios, a família, o trabalho, os estudos e a vida do dia-a-dia com o mesmo interesse.

Esta não é a visão bíblica nem a visão do verdadeiro avivamento. Tudo em nossa vida é vazado pelo sagrado. Toda a nossa vida é cúltica. Todo o nosso viver é litúrgico. O grande avivalista John Wesley lutou pelas causas sociais na Inglaterra ao mesmo tempo que pregou sobre avivamento. Finney pregou ardorosamente contra a escravidão nos EUA no século passado ao mesmo tempo que foi o maior avivalista do seu país. João Calvino atacou com veemência os juros extorsivos em Genebra. O avivamento sempre traz profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e morais. O avivamento não leva a igreja à fuga, mas ao enfrentamento.


2.7. Avivamento não é campanha de evangelização.

Não podemos confundir avivamento com campanhas evangelísticas. Avivamento é para a igreja, pessoas que já têm vida; evangelização é para o mundo, pessoas que estão mortas em delitos e pecados. Avivamento é para crentes nascidos de novo; evangelização é para pecadores inconversos. Na evangelização, a igreja trabalha para Deus; no avivamento, Deus trabalha para a igreja. Na evangelização, a igreja vai aos pecadores; no avivamento, os pecadores correm para a igreja. Na evangelização, os pregadores apelam aos pecadores; no avivamento, os pecadores apelam aos pregadores.


III - O Padrão Bíblico de Avivamento:

Podemos definir o avivamento bíblico em dois sentidos distintos:


3.1. O sentido estrito de avivamento.

Estritamente falando, avivamento é algo que acontece unicamente no meio do povo de Deus. O Espírito Santo renova, reaviva e desperta a igreja sonolenta. É revitalização onde já existe vida. Ou, como disse Robert Coleman, é "o retorno de algo à sua verdadeira natureza e propósito" (7).

Comentando um pouco mais sobre o sentido estrito de avivamento, diz o Dr. Martin Lloyd-Jones:

É uma experiência na vida da Igreja quando o Espírito Santo realiza uma obra incomum. Ele a realiza, primeiramente, entre os membros da Igreja: é um reviver dos crentes. Não se pode reviver algo que nunca teve vida; assim, por definição, o avivamento é primeiramente uma vivificação, um revigoramento, um despertamento de membros de igreja que se acham letárgicos, dormentes, quase moribundos (8).

Quando há esse impacto da obra do Espírito de Deus na vida da igreja, os resultados imediatos do avivamento são sentidos no povo de Deus: senso inequívoco da presença de Deus; oração fervorosa e louvor sincero; convicção de pecado na vida das pessoas; desejo profundo de santidade de vida e aumento perceptível no desejo de pregação do evangelho. Em outras palavras, a igreja amortecida e tristemente doente é a primeira a ser beneficiada pelo avivamento.


3.2. O sentido amplo de avivamento.

Como a própria expressão define, neste sentido não apenas a igreja, mas a sociedade não-cristã também é beneficiada pelo avivamento. Isto acontece porque, além da atuação soberana do Espírito Santo no mundo, na igreja passa a existir uma conscientização profunda de sua missão; isto é, a missão integral de servir o mundo evangelística e socialmente. No avivamento a igreja vive a missão para a qual foi chamada.

A sociedade não-cristã, por sua vez, volta-se para Deus em resposta ao evangelho. Acertadamente o Dr. Héber de Campos comenta que "o reavivamento começa na igreja e termina na comunidade maior onde ela vive. Os efeitos do reavivamento são muito mais perceptíveis nas mudanças morais que acontecem na região ou num país onde ele acontece. Ele não se limita simplesmente aos membros das igrejas atingidas pela obra de Deus. Ele causa impacto em toda a comunidade onde a igreja de Deus está inserida" (9).

Em suma, as duas características principais do avivamento são 1) o extraordinário revigoramento da igreja de Cristo e 2) a conversão de multidões que até o momento estiveram fora dela na indiferença e no pecado.


3.3. Avivamento e a Bíblia.

Aqui também abordaremos dois aspectos essenciais do avivamento.

1) O padrão bíblico de avivamento é a Bíblia

Por mais simplória e pleonástica que esta declaração pareça ser, ela é tão autêntica e singular como dois e dois são quatro. Estamos falando do único padrão inerrante e infalível de avivamento: a Bíblia.

Uma vez que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, é ela e somente ela que nos pode dar a direção certa deste assunto. A relação entre a Bíblia e o avivamento é tão intrínseca que é impossível um avivamento de verdade sem que a Bíblia faça parte dele.

Além disso, numa época de tantos extremos como este em que vivemos, é fundamental o equilíbrio que só a Bíblia oferece. Sabemos que hoje existem desde aqueles que vêem toda e qualquer manifestação entusiástica como avivamento, até àqueles que negam a sua existência, ou quando muito acham que avivamento é a mais nova onda do momento, uma coqueluche moderna, uma inovação humana sem respaldo bíblico. É necessário, mais do que nunca, recorrermos à lei e ao testemunho.

Permita-me ilustrar o que queremos dizer por "extremos". Edwin Orr (10), uma das maiores autoridades sobre avivamentos, disse que viu duas igrejas nos Estados Unidos convidando pessoas para suas reuniões de avivamentos. Uma delas dizia: "Reavivamento aqui todas às segundas-feiras à noite", enquanto que a outra prometia: "Reavivamento aqui todas às noites, exceto às segundas-feiras". Orr menciona este fato para relatar um desses extremos em que a palavra "avivamento" ou "reavivamento" é usada aleatoriamente, como se o avivamento fosse produzido simplesmente pelo desempenho humano com data e hora marcadas.

Voltando ao lugar da Bíblia no avivamento, é importante salientar que ela foi, é e sempre será a espada do Espírito Santo em todo avivamento bíblico. Não existe verdadeira espiritualidade sem a Bíblia. Observando os avivamentos ocorridos na Bíblia e na história da igreja, notamos que os objetos do Espírito eram sempre persuadidos com e para a Bíblia. Avivamento onde a Bíblia não está presente não passa de um mero pentecostalismo convencional.

"Um reavivamento", diz o Dr. Héber de Campos, "que é produto da obra do Espírito Santo na igreja, certamente tem sua ênfase naquilo que tem sido esquecido por muito tempo: a Palavra de Deus. A autoridade da Palavra de Deus passa ser algo extremamente forte num momento genuíno de reavivamento. A Bíblia passa novamente a ser honrada como a única Palavra inspirada de Deus" (11).

2) O padrão bíblico de avivamento está na Bíblia

Os primórdios do avivamento bíblico aparecem em Gênesis. Segundo Coleman, o que se pode chamar de "o grande despertamento geral" ocorreu nos dias de Sete, pouco depois do nascimento de seu filho Enos: "Então se começou a invocar o nome do Senhor" (Gn 4.26) (12). O nome Enos quer dizer fraco ou doente. O que é deveras significativo. Considerando o assassinato de Abel (Gn 3.9-15) e o aparecimento cada vez mais forte de doenças na raça humana, o nome Enos era bastante adequado. "É provável que fosse um reflexo da consciência da depravação humana e da necessidade da graça divina" (13). À parte desta indicação não existe nenhum outro relato de avivamento no princípio da história da raça humana. O relato subseqüente do dilúvio ilustra de modo dramático o que acontece com um povo que não se arrepende de seus pecados.

Depois temos os patriarcas que por vários séculos lideraram o povo de Deus. Sempre que a vitalidade espiritual do povo se desvanecia, eles agiam como a força que promovia novo vigor. O breve avivamento na casa de Jacó é um bom exemplo disso (Gn 35.1-15). Mais tarde, sob a liderança de Moisés, há períodos empolgantes de refrigério, especialmente nos acontecimentos ligados à primeira páscoa (Ex 12.21-28), na outorga da lei do Senhor no Sinai (Ex 19.1-25; 24.1-8; 32.1-35.29) e no levantamento da serpente de bronze no monte Hor (Nm 21.4-9).

No tempo de Josué um despertamento espiritual predominou em suas campanhas, como na travessia do rio Jordão (Js 3.1-5.12) e na conquista de Ai (Js 7.1-8.35). Mas quando terminaram as guerras e o povo se assentou para desfrutar os despojos da vitória, uma apatia espiritual se apoderou da nação. Sabendo que seu povo estava dividido, Josué reuniu as tribos de Israel, em Siquém, e exigiu que cada um escolhesse, de uma vez por todas, a quem servir (Js 24.1-15). Um verdadeiro avivamento segue-se a esse desafio, prosseguindo durante "todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito tempo depois de Josué, e sabiam toda a obra que o Senhor tinha feito a Israel" (Js 24.31).

O período de trezentos anos de liderança dos juízes mostra os israelitas, de quando em quando, traindo o Senhor e servindo a outros deuses. O juízo de Deus é inevitável. Então, após longos anos de opressão, o povo se arrepende e clama ao Senhor (Jz 3.9,15; 4.3; 6.6,7; 10.10). Em cada ocasião Deus responde as orações, enviando-lhes um libertador que liberta o povo na vitória contra os inimigos. Um dos maiores movimentos avivalistas aparece no final desse período, sob a direção de Samuel (I Sm 7.1-17).

Tempos de renovação ocorreram periodicamente no período dos reis. A marcha de Davi, entrando com a arca em Jerusalém, possui muitos ingredientes de um avivamento (2 Sm 6.12-23). A dedicação do templo, no início do reinado de Salomão, é outro grande exemplo (I Rs 8). O avivamento também chega a Judá nos dias de Asa (I Rs 15.9-15). E Josafá, outro rei de Judá, lidera uma reforma (I Rs 22.41-50), bem como o sacerdote Joiada (2 Rs 11.4-12.16). Outro poderoso despertamento é vivenciado na terra sob a liderança do rei Ezequias (2 Rs 18.1-8). Por fim, a descoberta do livro da lei, durante o reinado de Josias, dá início a um dos maiores avivamentos registrados na Bíblia (2 Rs 22,23; 2 Cr 34,35).

Ainda, sob a liderança de Zorobabel e Jesua, outra vez começa a reacender um novo avivamento (Ed 1.1-4.24). Tendo as intimidações dos inimigos induzido os judeus a interromperem a reconstrução do templo, os profetas Ageu e Zacarias entraram em cena para instigar o povo a prosseguir (Ed 5.1-6.22; Ag 1.1-2.23; Zc 1.1-21; 8.1-23). Setenta e cinco anos depois, com a chegada de outra expedição liderada por Esdras, novas reformas são iniciadas em Jerusalém, dando-se mais atenção à lei (Ed 7.1-10.44). O avivamento alcança o auge poucos anos depois, quando Neemias se apresenta para completar a construção dos muros de Jerusalém e estabelecer um governo teocrático (Ne 1.1-13.31).

Uma oração por avivamento e a promessa de sua ocorrência encontramos também em Joel 2.28-32; Habacuque 2.14-3.19 e Malaquias 4.

No apogeu de um grande avivamento Jesus aparece e é batizado por João Batista. Escolhe e treina seus discípulos; ascende aos céus, deixando-os na expectativa de receberam a promessa do Espírito (Lc 24.49-53; At 1.1-26). O poderoso derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, inaugura o avivamento que Jesus havia predito (At 2.1-47). "Marca-se, assim, o início de uma nova era na história da redenção. Por três anos Jesus trabalhara na preparação desse dia - o dia em que a Igreja, discipulada por intermédio de seu exemplo, redimida por seu sangue, garantida por sua ressurreição, sairia em seu nome a proclamar o Evangelho 'até os confins da terra' (At 1.8)" (14).

O livro de Atos registra a dimensão desse avivamento. Avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. E de lá para cá, são muitos os relatos da obra vivificadora do Espírito Santo na história da igreja, como por exemplo, na Alemanha com a Reforma Protestante do século XVI, na Inglaterra no século XVIII, entre os negros Zulus da África do Sul na década de 60 e na Coréia do Sul nestes últimos tempos, dentre outros.

Que Deus derrame do seu Espírito sobre nós para que possamos, como igreja e povo brasileiros, experimentar mais uma vez daquele "fogo abrasador" que nos purifica e nos santifica para uma vida cristã de obediência à sua Palavra.


NOTAS:

(1) Cf. D. M. Lloyd-Jones, DO TEMOR À FÉ (2ª ed. São Paulo: Editora Vida, 1987), pp. 73,4. Veja também, de Gerard Van Groningen, AVIVAMENTO SOB UM PRISMA VÉTERO-TESTAMENTÁRIO no site www.ipcb.org.br.

(2) Os termos "avivamento", "reavivamento", "renovação", "despertamento", "vivificação", "reviver" e "tornar a viver" são usados no mesmo sentido.

(3) O significado literal da expressão hebraica "vivificar-nos", do Salmo 85.6, é "causa-nos viver", onde se reconhece que a vitalidade espiritual depende inteiramente de Deus.

(4) O Novo Comentário da Bíblia, Edições Vida Nova, dá a este Salmo o sugestivo título: UMA ORAÇÃO PEDINDO REAVIVAMENTO.

(5) Para um ponto de vista diferente, veja a obra do Dr. Paul E. Pierson, A HISTÓRIA DOS AVIVAMENTOS, material apostilado pela Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina - PR.

(6) Uma posição semelhante foi apresentada pelo Rev. Edijéce Martins Ferreira, em entrevista ao Jornal Brasil Presbiteriano (Abril/94, p. 12): "Confunde-se avivamento com atitude pessoal e inclusive corporal (física), com expressão emocional, levantar de mãos, etc. Essas atitudes em si não são propriamente prejudiciais. Todavia, pela confusão que se faz a doutrina sai perdendo. Há uma superficialidade doutrinária muito grande, porque se dá ênfase excessiva ao louvor, a sermões eletrizantes, a práticas pentecostais, quando avivamento é tão somente uma consciência clara e profunda da vontade de Deus (que é doutrinária) e uma disposição plena de obediência (que é prática)".

(7) R. Coleman, A CHEGADA DO AVIVAMENTO MUNDIAL (São Paulo: CPAD, 1996), p. 18.

(8) D. M. Lloyd-Jones, OS PURITANOS: SUAS ORIGENS E SEUS SUCESSORES (São Paulo: PES, 1993), pp. 15,6. Veja também, do mesmo autor, o excelente livro AVIVAMENTO (São Paulo: PES, 1992) 320 pp.

(9) Héber C. Campos, CRESCIMENTO DA IGREJA: COM REFORMA OU COM REAVIVAMENTO? In Fides Reformata, Vol I, Nº 1 (São Paulo: 1996), pp. 44,5.

(10) Citado por Brian H. Edwards em REVIVAL! A PEOPLE SATURED WITH GOD (England: Evangelical Press, 1994), p. 25.

(11) H. C. Campos, op. cit., p. 45.

(12) R. Coleman, op. cit., p. 53.

(13) Idem.

(14) Idem, p. 61.

Rev. Josivaldo de França Pereira - Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (I.P.B.) em Santo André - SP. Bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição (J.M.C. - SP), Licenciado em filosofia pela F.A.I. (Faculdades Associadas Ipiranga - SP) e mestrando em missiologia pelo Seminário Teológico Sul Americano (S.T.S.A.) em Londrina - PR.
Fonte: O Padrão Bíblico de Avivamento por Rev. Josivaldo de França Pereira | Monergismo

Documentário: Em Defesa de Cristo

4 de abril de 2011 § 0


Encontrei este documentário recentemente no YouTube. Nele o jornalista Lee Strobel faz aquelas perguntas difíceis sobre a veracidade histórica de Jesus Cristo.
Temos documentos confiáveis sobre a vida, os ensinos e a ressurreição de Jesus? Existe fundamentação arqueológica para os relatos históricos sobre Jesus? Ele operou milagres? Jesus realmente afirmou ser Deus? Qual a prova de que ele se enquadra no perfil de Deus? O que a profecia bíblica tem a dizer a respeito de Jesus? 
Conta com a participação de especialistas de renome como Willian Lane Craig, J. P. Moreland, N. T. Wright, e outros. Essencial para todo cristão, uma aula de história sobre a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus Cristo.


Baseado no livro de STROBEL, Lee - "Em Defesa de Cristo" São Paulo: Editora Vida, 2001

Não devemos julgar... Será?

28 de março de 2011 § 2


Recentemente, em uma reunião com amigos, debatendo sobre as posições e ações de algumas lideranças religiosas, se eram aprováveis ou reprováveis, surgiu o conceito: Não devemos julgar. Logicamente não concordo com tal pensamento e pesquisando pela blogosfera encontrei este excelente texto: Devemos julgar? Por Ruy B. Marinho do Blog Bereianos.

“Não julguem, para que vocês não sejam julgados.” Mateus 7:1 - NVI 
Em primeiro lugar deixo claro que aqui JESUS claramente proíbe o julgamento. Mas a grande questão é se JESUS proíbe qualquer julgamento ou somente certo tipo de julgamento. O versículo 1 por si mesmo não nos dá uma resposta para esta pergunta. Por isso temos que aplicar uma regra fundamental para poder interpretar a Biblia. Analisar sempre o contexto da passagem citada para poder saber de que se trata a mesma, pois sabemos que texto fora de contexto é um pré-texto para formar até mesmo uma heresia.

Aqueles que citam esta passagem isoladamente para dizer que não devemos julgar ninguém e ser tolerante estão gravemente equivocados.
“Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.” Mateus 7:2-5 - NVI 
Analisando o contexto podemos ver claramente que JESUS proíbe especificamente o “julgamento hipócrita”. Jesus diz aos judeus no versículo 1 que eles não devem julgar. No versículo 2, ele dá a razão pela qual eles não devem julgar: o padrão que eles usam para julgar os outros será o mesmo padrão que os outros usarão para julgá-los. Eles não devem ignorar seus próprios pecados, enquanto condenando os mesmos pecados nos outros. Fazer isto é julgar com um “padrão Duplo”, ou seja, julgar hipocritamente.

Não é hipócrita condenar o irmão por uma pequena falta, ou mesmo tentar ajudá-lo a sobrepujá-la, quando você mesmo é culpado de uma falta maior? Esta é a grande questão que JESUS estava colocando diante do povo nesta passagem.

Mateus 7:1, de acordo com o seu contexto, não proíbe todo julgamento e intolerância, mas somente o julgamento e intolerância hipócrita. De fato, ele requer de nós que, após nos arrependermos dos nossos próprios pecados, condenemos o pecado do irmão como pecado, e ajudemo-lo a se voltar dele.

Jesus ordena uma intolerância genuína, e não hipócrita, do pecado que o irmão comete.
“Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: "Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela".” João 8:7 - NVI
“Então Jesus pôs-se de pé e perguntou-lhe: "Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou? Ninguém, Senhor", disse ela. Declarou Jesus: "Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado".” João 8:10-11 - NVI
Os defensores da tolerância usam estas palavras para argumentar que ninguém deveria condenar outras pessoas, pois não é melhor que elas.

Embora explicaremos o que significa julgar em maior detalhe mais tarde, estendamos por ora que, quando alguém julga, ela dá um veredicto: Culpado ou inocente. Após ser julgada, a pessoa é sentenciada: A pessoa culpada é condenada (sentenciada ao castigo) e a inocente é liberta. O ponto é que julgar e condenar são duas coisas distintas, relacionadas, mas não idênticas.

Tendo isso em mente, note que Jesus de fato julga esta mulher, mas não a condena. Ao dizer-lhe “vai e não peques mais”, Jesus indica que ela tinha pecado. Em si mesma, a acusação dos fariseus estava correta, e Jesus julgou o pecado como sendo pecado. Isto mostra intolerância pela ação pecaminosa! Seguindo o exemplo de Jesus, devemos dizer aos pecadores que mostrem arrependimento genuíno não mais cometendo pecado.

João 8:7 e 11 nos ensinam como tratar com outros que pecam. O versículo 11 nos ensina que devemos desejar o arrependimento do pecador; o versículo 7 nos ensina que não devemos fazer isso hipocritamente, nem com motivos errôneos ou de uma maneira imprópria. Contudo, a passagem não quer dizer que nunca devemos considerar as pessoas responsáveis por seus pecados ( isto é, julgar o pecado como sendo pecado).
“Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos.” João 7:24 - NVI
Ao dizer “não julgueis”, Jesus não pretende proibir o julgamento como tal, mas proibir certo tipo de julgamento, como a parte positiva deste versículo deixa claro. Podemos julgar, mas quando o fizermos, devemos julgar justamente.
“Já lhes disse por carta que vocês não devem associar-se com pessoas imorais. Com isso não me refiro aos imorais deste mundo, nem aos avarentos, aos ladrões ou aos idólatras. Se assim fosse, vocês precisariam sair deste mundo. Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar-se com qualquer que, dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou ladrão. Com tais pessoas vocês nem devem comer. Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não devem vocês julgar os que estão dentro? Deus julgará os de fora. "Expulsem esse perverso do meio de vocês".” 1 Coríntios 5:9-13 - NVI
1 Coríntios 5 é um capítulo importante com respeito ao dever positivo de julgar. Primeiro, no versículo 3 Paulo declara, sob a inspiração do Espírito, que ele tinha julgado um membro da igreja em Corinto que estava vivendo no pecado da fornicação.

Segundo, nos versículos 9-13, Paulo lembra aos santos do seu dever de julgar as pessoas que estão dentro da igreja, quanto a se eles estão obedecendo ou não a lei de Deus. Aqueles que alegam ser cristãos e são membros da igreja, mas que são julgados como sendo impenitentemente desobedientes a qualquer mandamento da lei de Deus (vs 9-10), devem ser excluídos da comunhão da Igreja. Paulo, sob a inspiração do Espírito, diz para a igreja não tolerar pecadores impetinentes.
“Não tratem com desprezo as profecias, mas ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom.” 1 Tessalonicenses 5:20-21 - NVI

“Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” 1 João 4:1 - NVI

“Como já dissemos, agora repito: Se alguém lhes anuncia um evangelho diferente daquele que já receberam, que seja amaldiçoado!” Gálatas 1:9 - NVI 
Algumas passagens da Escritura parecem proibir o julgamento, enquanto outras claramente exigem isso. Estudando os contextos daquelas que parecem proibir o julgamento, descobrimos que o que é proibido não é realmente o julgamento em si, mas sim um tipo errôneo de julgamento. Deus odeia o julgamento hipócrita! Mas Deus ama o julgamento justo da parte dos seus filhos. Que ele ama isso é claro a partir do fato de ordenar que o pratiquemos, e de ter dado sua lei como um padrão pelo qual podemos cumprir tal mandamento.

Portanto, é dever de todo Cristão Julgar! Mas este "julgar" não significa fazer injúrias, calúnias ou fofocas sobre a pessoa que está no erro. Se vemos que alguém está se desviando do Evangelho ou pregando heresias, o nosso objetivo principal deve ser alertar, repreender, exortar e conduzir o pecador ao arrependimento e a restauração. Caso a disciplina seja indispensável, ela deve ser feita com seriedade, amor e tristeza, sempre objetivando o arrependimento, e não a condenação eterna do pecador. E com muito temor também, afinal, não somos pessoas perfeitas e ninguém deve ser julgado ou condenado injustamente. E também é nosso dever estar alertando ao Corpo de Cristo sobre determinadas heresias que porventura continuam a ser pregadas e os autores da mesma não querem dar ouvidos.
“Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais deverão restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado.” Gálatas 6:1 - NVI

“Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, segundo os seus próprios desejos juntarão mestres para si mesmos.” 2 Timóteo 4:2-3 - NVI
Créditos: alguns textos retirados do livro:
"Julgar, o dever do Cristão" – Rev. Doug Kuiper

Livro: Ortodoxia, G. K. Chesterton

24 de março de 2011 § 0


Há um tempo, me interessei pela apologética, acidentalmente, sem saber o que era. Participava de um fórum de jogos, onde conversávamos sobre diversos assuntos, dentre os quais eu mais gostava estavam aqueles que geravam polêmica. Como já é de se esperar, discussões sobre religião, volta e meia apareciam. A grande maioria dos participantes eram jovens e ateus, sempre dispostos a atacar a fé cristã e escarnecer quem fosse que a defende-se. Em minhas primeiras tentativas de defesa fui ingênuo, tentei expressar minhas experiências pessoais, não deu muito certo, péssima escolha para um debate com um ateu. Comecei a aprimorar, buscando informações pela internet mesmo, acabei encontrando alguns blogs com perspectiva cristã, como o do Luciano Ayan (na época: Neo-ateísmo, um delírio) onde aprendi métodos que me ajudaram muito.

Quanto mais informações eu encontrava mais a sede de aprender aumentava. Passeando por mais um blog com perspectiva cristã, dessa vez o do Eliel Viera, encontrei a resenha do livro Ortodoxia de G. K. Chesterton. O entusiasmo de Eliel em descrever o livro, considerando-o único, me chamou a atenção. Tenho de ler esse livro - pensei. Não demorou muito para comprá-lo.

Demorei um tempo para terminar de lê-lo. Eliel foi muito feliz em sua resenha. O livro realmente é muito bom, assim como também é complexo. Como ele alertou, não é recomendável a qualquer cristão, por boas vezes tive de procurar informação na internet e até mesmo voltar a ler desde o início de cada capítulo para melhor entendê-lo. Nada que tenha estragado minha aventura. Indico como um livro essencial para ter em sua estante.

William Lane Craig: Jesus e a Mitologia Pagã

21 de fevereiro de 2011 § 0


Tradução: Marcelo N. Motta

Pergunta:

Dr. Craig,

Obrigado por sua ajuda em tudo que você faz para mostrar a verdade que está em Cristo.
 
Na verdade eu só tenho uma pergunta, e, para ser franco, ela me frustra inúmeras vezes. Acontece quase todas as vezes que eu debato cristianismo com alguém.

A pergunta, “Jesus é um mito copiado ou uma pessoal real?” é a fonte de objeção que eu recebo a maioria das vezes. Eles listam todas as similaridades entre Jesus e outros deuses e constelações mitológicos e dizem “Vê como são parecidos?”

Parece que não importa como eu refuto certa similaridade entre Cristo e outra crença mitológica, eles não levam muito a sério o que digo, porque respondem que “eu tenho trabalhado muito duro para salvar minha religião.”

Esses argumentos são sólidos? Eles sequer são debatidos nos altos níveis acadêmicos ainda?
Eu realmente gostaria de saber sua visão nesse ponto, pois continuo trombando nisso e francamente estou cansado de tentar refutar cada similaridade.

Obrigado por tudo que você tem feito. Eu já fui um ateu, mas o argumento a favor de valores e deveres morais objetivos foi o que me levou a Cristo.

Kevin

Dr. William Lane Craig responde:

O falecido Robert Funk, fundador do radical Seminário Jesus, reclamava amargamente do abismo que existe entre os principais estudos e as crenças populares sobre Jesus. Funk pensava principalmente sobre a distância entre o pietismo popular e o conhecimento histórico sobre Jesus; mas em lugar algum o abismo é tão grande como entre a irreligiosidade popular e os estudos sobre o Jesus histórico.

O movimento do Pensamento Livre, que alimenta a objeção popular que as crenças cristãs sobre Jesus são derivadas da mitologia pagã, está empacado entre os estudos do final do século XIX. De certa forma isso é impressionante, já que existem muitos estudiosos contemporâneos céticos, como os do Seminário Jesus, cuja obra os livre pensadores poderiam utilizar a fim de justificar seu ceticismo sobre a compreensão tradicional de Jesus. Mas isso só serve para mostrar como esses popularizadores não têm contato com o trabalho de estudiosos sobre Jesus. Eles estão um século desatualizados.

Voltando à época da chamada escola de História de Religiões, estudiosos em religiões comparadas encontraram paralelos a crenças cristãs em outras religiões, e alguns pensaram em explicar que essas crenças (incluindo a na ressurreição de Jesus) foram influenciadas por esses mitos. Hoje, no entanto, raramente algum estudioso pensa em mitos como uma categoria importante para se interpretar os Evangelhos. Os estudiosos perceberam que a mitologia pagã é simplesmente o contexto interpretativo errado para se compreender Jesus de Nazaré.

Craig Evans chama essa mudança de o “Eclipse da Mitologia” na pesquisa sobre a vida de Jesus (veja seu artigo excelente “Life-of-Jesus Research and the Eclipse of Mythology,” Thelogical Studies 54 [1993]: 3-36). James D. G. Dunn começa assim seu artigo sobre “Mitos” no Dicionário de Jesus e dos Evangelhos (IVP, 1993) com a clara rejeição, “Mito é um termo de, pelo menos, relevância duvidosa para o estudo de Jesus e dos Evangelhos.”

Algumas vezes essa mudança é referida como a “rejudaização de Jesus.” Pois Jesus e seus discípulos eram judeus do primeiro século, e é contra esse pano de fundo que devem ser compreendidos. A rejudaização de Jesus tem ajudado a tornar injustificado qualquer compreensão do retrato dEle nos Evangelhos como influenciado significativamente pela mitologia.

Essa mudança é proferida em relação à historicidade dos milagres e exorcismos de Jesus. Estudiosos contemporâneos podem não estar mais preparados para acreditar no caráter sobrenatural dos milagres e exorcismos de Jesus do que os estudiosos de gerações anteriores. Mas eles não estão mais dispostos a atribuir essas histórias à influência dos mitos gregos do homem-divino (theios aner). Antes, os milagres e exorcismos de Jesus devem ser interpretados no contexto das crenças e práticas judaicas do primeiro século. O estudioso judeu Geza Vermes, por exemplo, tem chamado a atenção aos ministérios dos realizadores de milagres e/ou exorcistas carismáticos Honi “o desenhista de círculos” (primeiro séc. a.C.) e Hanina ben Dosa (primeiro séc. d.C.) e interpreta Jesus de Nazaré como um judeu hassídico ou um santo. Hoje o consenso dos estudos sustenta que a realização de milagres e exorcismos (apoiando a questão de seu caráter sobrenatural) pertence, sem sombra de dúvida, a qualquer reconstrução historicamente aceitável do ministério de Jesus.

O colapso da antiga escola da História de Religiões ocorreu por principalmente dois motivos. Primeiro, estudiosos perceberam que os paralelos alegados eram ilegítimos. O mundo antigo era um lugar cheio de mitos de deuses e heróis. Estudos comparativos na religião e literatura requerem sensibilidade às suas similaridades e diferenças, ou o resultado será inevitavelmente distorção e confusão. Infelizmente, aqueles que apresentaram paralelos às crenças cristãs falharam em exercer essa sensibilidade. Veja, por exemplo, a história do nascimento virginal, ou, mais precisamente, a concepção virginal de Jesus. Os paralelos pagãos alegados a essa história são sobre lendas de deuses que se materializaram e tiveram relações sexuais com mulheres humanas para gerar uma prole humano-divina (como Hércules). Assim como esta, essas histórias são exatamente o contrário dos relatos dos Evangelhos, nos quais Maria concebeu Jesus sem ter tido nenhuma relação sexual. As histórias dos Evangelhos sobre a concepção virginal de Jesus são, na verdade, únicas no Oriente Próximo antigo.

Ou considere o evento dos Evangelhos que eu acho mais interessante: a ressurreição de Jesus dentre os mortos. Muitas das alegadas similaridades a esse evento são na verdade histórias apoteóticas, a divinização e assunção do herói ao céu (Hércules, Rômulo). Outras são sobre desaparecimentos, afirmando que o herói foi-se para um plano superior (Apolônio de Tiana, Empédocles). Outras ainda são símbolos sazonais do ciclo das colheitas, conforme a vegetação morre na estação seca e volta à vida na estação chuvosa (Tamuz, Osíris, Adônis). Algumas são expressões políticas de adoração aos imperadores (Júlio César, César Augusto). Nenhuma delas é similar à idéia judaica de ressurreição dos mortos. David Aune, especialista em literatura comparada do antigo Oriente Próximo, conclui, “nenhum paralelo a elas [tradições da ressurreição] é encontrado nos escritos greco-romanos” (“The Genre of the Gospels,” em Gospel Perspectives II, ed. R. T. France and David Wenham [Sheffield: JSOT Press, 1981], pg 48).

Na verdade, a maioria dos estudiosos chegaram a duvidar se, apropriadamente falando, houve realmente algum mito de deuses que morriam e ressurgiam! No mito de Osíris, um dos mitos sazonais mais conhecidos, ele nem chega a voltar à vida, mas simplesmente continua a existir exilado no sub-mundo. Numa revisão recente da evidência, T. N. D. Mettinger informa: “A partir da década de 30… um consenso se desenvolveu ao significado que os deuses, “que morriam e ressurgiam”, morreram, mas não voltaram a viver novamente… Aqueles que continuam a pensar diferente são vistos como sobreviventes de uma espécie quase extinta.” (Tryggve N. D. Mettinger, The Riddle of Resurrection: “Dying and Rising Gods” in the Ancient Near East [Stockholm, Sweden: Almquist & Wiksell International, 2001], pg 4, 7).

O próprio Mettinger acredita que mitos de deuses que morriam e ressurgiam existiram nos casos de Dumuzi, Baal e Melqart; mas reconhece que tais símbolos são bem diferentes da antiga crença cristã na ressurreição de Jesus:
“Os deuses que morriam e ressurgiam estavam muito ligados ao ciclo sazonal. Sua morte e retorno eram vistos como refletidas nas mudanças nas plantas. A morte e ressurreição de Jesus é um evento único, não se repete, e não está ligado às mudanças sazonais… Não existe, pelo o que eu sei, nenhuma evidência clara que a morte e ressurreição de Jesus são uma construção mitológica, baseada nos mitos e ritos dos deuses sazonais das nações vizinhas. Enquanto for estudada com proveito contra o pano de fundo da crença da ressurreição judaica, a fé na morte e ressurreição de Jesus mantém seu caráter único na história das religiões. O mistério continua (Ibidem, pg 221).”
Repare no comentário de Mettinger, que a crença na ressurreição de Jesus pode ser proveitosamente estudada contra o pano de fundo das crenças judaicas da ressurreição (não mitologia pagã). Aqui vemos aquela mudança nos estudos no Novo Testamento que eu apontei acima como a rejudaização de Jesus. A ilegitimidade das similaridades alegadas é apenas uma indicação que a mitologia pagã é o esquema interpretativo errado para compreender a crença dos discípulos na ressurreição de Jesus.

Segundo, a escola da História de Religiões sucumbiu como uma explicação para a origem das crenças cristãs sobre Jesus, porque não houve nenhuma conexão causal entre os mitos pagãos e a origem das crenças cristãs sobre Jesus. Veja, por exemplo, a ressurreição. Os judeus conheciam os deuses sazonais mencionados acima (Ez 37.1-14) e os acharam repugnantes. Por isso, não há traços de culto a deuses sazonais na Palestina do primeiro século. Para os judeus, a ressurreição à glória e imortalidade não aconteceria antes da ressurreição geral de todos os mortos no fim do mundo. É inacreditável pensar que os discípulos originais teriam súbita e sinceramente acreditado que Jesus de Nazaré ressuscitou dentre os mortos apenas porque ouviram sobre mitos pagãos de deuses que morriam e ressurgiam.
Mas, de certo modo, tudo isso é irrelevante à sua pergunta principal, Kevin. Pois, como você mostrou, as pessoas com que você conversa não têm acesso aos estudos. Quando você mostra a elas a ilegitimidade das similaridades alegadas, então é acusado de “ter trabalhado muito duro para salvar sua religião.” Essa é uma situação que você não pode vencer. Então, estou inclinado a dizer-lhe que você não deveria ocupar-se em “tentar refutar cada similaridade.” Antes, eu acho que uma atitude mais genérica e desinteressada de sua parte pode ser mais eficaz.

Quando eles disserem que as crenças cristãs sobre Jesus vieram da mitologia pagã, eu acho que você deveria rir. Então olhe para eles com os olhos arregalados e um grande sorriso e diga, “Vocês realmente acreditam nisso?” Aja como se tivesse acabado de conhecer alguém que acredite na terra plana ou na conspiração de Roswell. Você podia dizer algo do tipo, “Cara, essas velhas teorias estão mortas há mais de cem anos! Da onde você está tirando isso?” Diga-lhes que isso é apenas lixo sensacionalista e não estudos sérios. Caso insistam, então peça a eles que lhe mostrem as próprias passagens que narram a suposta similaridade. São eles que estão nadando contra o consenso dos estudos, então faça-os trabalhar duro para salvar a religião deles. Eu acho que você descobrirá que eles nem se quer leram as fontes originais.

Se eles chegarem a citar um trecho de uma fonte, eu acho que você ficará surpreso com o que verá. Por exemplo, no meu debate sobre a ressurreição com Robert Prince, ele dizia que as curas que Jesus fez vieram dos relatos mitológicos de curas, como as de Esculápio. Eu insisti que ele lesse a todos uma passagem das fontes originais mostrando a suposta similaridade. Quando ele leu, o que alegava não tinha nada a ver com as histórias dos Evangelhos sobre as curas de Jesus! Essa foi a melhor prova que a origem das histórias não estava relacionada.

Lembre-se: qualquer um que insiste nessa objeção tem de suportar o ônus da prova. Ele precisa mostrar que as narrativas são paralelas e, além disso, que são causalmente ligadas. Insista que eles suportem esse ônus, caso você leve as objeções deles a sério.

Fonte: Apologia